quarta-feira, 1 de outubro de 2014

ORIGEM DO NOME VILA DO ABRAÃO

ORIGEM DO NOME VILA DO ABRAÃO
Foi tirado de inspiração da expressão bíblica SEIO DE ABRAHÃO.

VISTA DA VILA DO ABRAÃO (2005)
  

Vila do Abraão é a capital da Ilha Grande que faz parte do município de Angra dos Reis, seu principal porto turístico de entrada. Situada numa abrigada enseada, com cerca de 4 mil habitantes, é o maior e mais importante núcleo urbano da Ilha Grande dotado de infra-estrutura para atender necessidades básicas em termos de hospedagem, alimentação, aluguel de barcos, equipamentos de pesca e mergulho, camping e serviço de guia de turismo ecológico. No verão a chagada de um enorme contingente de veranistas eleva essa população a número “preocupante” de milhares de pessoas: cerca de cinco mil visitantes por dia.

PRAIA DO ABRAÃOZINHO
Vila do Abraão - 2005


A Vila do Abraão recebe durante o ano todo, a grande maioria dos turistas que dela saem em passeios marítimos ou a pé, por trilhas já existentes, pra conhecer outras localidades da belíssima “Ilha sem fim”.

IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO
Vila do Abraão - 2005


Para chegar à Ilha Grande (Vila do Abraão) é preciso fazer uma longa travessia de mar que pode começar nos municípios de Angra dos Reis ou Mangaratiba, bem próximo a estrada Rio-Santos, região da Costa Verde, litoral sul do Rio de Janeiro. A duração do tempo de travessia pode chegar à uma hora e meia. Entretanto, não recomendamos essa longa “travessia de mar” às pessoas que sofrem de uma doença denominada CINETOSE, também chamada de “enjôo do movimento” ou “mal do movimento”.  


É VILA DO ABRÃO ou VILA DO ABRAÃO?

“ABRÃO já não será o teu nome, e, sim Abraão...”  - Gênesis 17:05, Bíblia Sagrada.

Abraão ou Abrão; afinal de contas, qual a origem do nome que deu fama à “capital” da Ilha Grande? Hoje, para grande parte dos personagens que tentam esclarecer essa dúvida, o nome da Vila de origem no aumentativo da palavra ABRA, que, segundo o senso comum, seria uma denominação antiga que os portugueses usavam para ENSEADA: ABRÃO (Vila do Abrão), fato que não se confirma em dicionário ou livros antigos de geografia. Ou até mesmo vem do nome do Pirata inglês Abraham Cock (cuja missão do bandido era matar, roubar e destruir), que supostamente residiu nessa localidade da Ilha Grande por volta de 1591 a 1598, o que seria mais aceitável.    


VILA DO ABRAÃO (1909)
Área de desinfecção do antigo Lazareto

Se durante algum período da existência da Vila do Abraão seus habitantes a chamavam de ABRÃO, se justificaria pelo fato dessa comunidade ser formada por pessoas muitos simples (escravos, brancos pobres, ou até mesmo ricos analfabetos). Devido à dificuldade de pronúncia, passaram a falar a língua portuguesa com linguajar distorcido, como por exemplo: paizinho (paínho), então (antão), Willian (íla, uíla ou Ilha), Antônio (ântonho ou tónho), oi gente! (ôchente), Raimundo (rímundo, múndo), polícia (púliça), filho (fiu), meu filho (môfío), palha (páia), mulher (múié), culher (cúié), olho (ôio, zôio), orelha (uréia), flor (fulô), senhor (inhô), senhora (inhá), vidro (vRídu), ABRAHÃO (ABRÃO), ETC.  Está claro? Possivelmente, esse tipo de dialeto tenha prevalecido até a primeira metade do século XX (passado), sendo extinto pouco a pouco por força do desenvolvimento cultural e econômico do país. É o que os entendidos chamam de “regionalismo lingüístico”, acreditamos.     


VILA DO ABRAÃO - 1942
 (Arquivo Olí Mutti Moura)
Crédito: 

Grupo de Pesquisa Arte, Cultura e Poder

Portanto, é inaceitável imaginarmos que um lugar tão estratégico para os navegantes daquela época, teria sido batizado com nome unicamente descritivo no caso, se interpretarmos que a denominação provém do aumentativo da palavra ABRA.

Existe uma origem diferente (confiável), respaldado de fonte e documento esclarecendo a razão do BATISMO DA ENSEADA onde foi erguida a Vila, e que com o tempo, ela também ganharia a mesma denominação: Vila do Abraão. Esse documento que pode ser encontrado no Arquivo Nacional, Biblioteca da Marinha, e na WEB, declara que o nome ABRAHÃO (com a letra “H”) que batizou para sempre a Enseada e a famosa Vila, fora dado pelos NAVEGANTES, através da expressão bíblica “Seio de Abrahão” tirado de inspiração da parábola de Jesus: O rico e Lázaro (N.T – Livro de Lucas, capítulo. 16: 19-24).
FABRICA DE SARDINHA - 1942
(Arquivo Olí Mutti Moura)
Crédito: 

Grupo de Pesquisa Arte, Cultura e Poder

Na verdade foi uma expressão de gratidão daqueles navegantes, por encontrarem ali abrigo perfeito para suas embarcações, além de um lugar de paz e descanso para a tripulação, depois de enfrentar corajosamente o mar alto e agitado. Ou seja, um “paraíso terrestre” neste lado do Atlântico.

É bom entendermos que a expressão bíblica “Seio de Abrahão” se traduz como “paraíso” que é um lugar de “descanso e paz”. Também é importante lembrar, que os navegadores portugueses e, outros Europeus, costumavam batizar os locais visitados quase sempre inspirados por uma passagem bíblica ou nome de algum santo do calendário católico, como por exemplo: Cabo de Santo Agostinho, Pináculo da Tentação, Angra dos Reis (dia 6 de janeiro), Monte Pascoal, etc. Utilizava-se de nomes bem próprios ligados diretamente a sua cultura, e não diferente desse contexto.

IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO - 2005
Praça principal da Vila do Abraão


Vejamos o que foi declarado em documento oficial (relatório), por uma autoridade no século XIX, para indicar ao Governo Imperial de D. Pedro II uma localidade apropriada à instalação de um LAZARETO (não era um hospital, e sim, um centro de triagem e isolamento). O Lazareto tinha a finalidade de abrigar durante um período de quarenta, passageiros de navios suspeitos de transportarem visitantes e imigrantes com enfermidades infecciosas com destino ao porto do Rio de Janeiro. Inclusive, esse personagem, esclarece o porquê da Enseada do Abraão, hoje, ter “merecido” chamar-se “SEIO DE ABRAHÂO”.    Foi transcrito abaixo, respeitando as expressões da língua portuguesa da época (omitimos acentos, etc.):

“Segui para Ilha Grande, cujas enseadas do lado norte são tão encarecidas pelos navegantes e onde, em 1856, não só uma fragata ingleza, como varios, vapores procedentes das províncias do norte fizeram quarentena e foram desenfectados”.

Veja o que ele diz agora!

“Uma dessas enseadas, QUE PELO ABRIGO QUE OFERECE AS EMBARCAÇÕES MERECEU SER DENOMINADA – SEIO DE ABRAHÃO – era o ponto predilecto dos que indicavam a Ilha; mas esqueciam-se estes de que podem competir com a referida enseada duas outras: a de Palmas e a do Céo.” – (Autor do relatório, Dr. Nuno de Andrade, Inspetor de Saúde do Porto do Rio de Janeiro, em 11 de agosto de 1884).
É esclarecedor? Acreditamos que sim. Divulgue, então, por favor.  



LAZARETO da ILHA GRANDE - 1909
Construído na Praia Preta, Vila do Abraão

Agora já sabemos que foi por MERECIMENTO que a Enseada do Abraão recebeu de batismo dos próprios navegantes, através da expressão bíblica SEIO DE ABRAHÃO, o nome que se conserva até hoje, e que vai ficar para sempre.  

Entretanto, é importante esclarecer aos sinceros defensores da palavra ABRA no aumentativo (ABRÃO), que ABRAÃO ou ABRÃO são dois nomes de origem bíblica, aparentemente distintos, mas que felizmente diz respeito, exclusivamente, a uma ÚNICA PESSOA, e justamente ao “Patriarca Abraão” que inspirou a expressão bíblica em questão: Seio de Abraão. Como também é importante saber, que o patriarca ABRAÃO, ao nascer, recebeu da parte dos seus pais o nome ABRÃO que significa “Pai Elevado” (isso mesmo, Abrão!), e assim foi chamado até completar a idade de 99 anos (confira na Bíblia, Antigo Testamento, Livro de Gênesis, Capítulos de 12 a 16).


PATRIARCA ABRAÃO
Até completar a idade de  99 anos chamava-se ABRÃO
Quando atingiu ABRÃO a idade de 99 anos, segundo o relato bíblico, Deus muda o nome do patriarca ABRÃO para ABRAÃO (Abrahão), que no original em hebraico, Abraham, quer dizer “Pai das Multidões”. Veja o que está escrito no livro de Gênesis, capítulo 17, versículo 05: ABRÃO JÁ NÃO SERÁ O TEU NOME, E, SIM ABRAÃO...”.

Conforme tudo que foi visto, concluímos que a Vila e Enseada do Abraão, local de abrigo, consolo e paz teve seu nome originado da denominação SEIO DE ABRAÃO, expressão de gratidão dos navegantes da época do batismo. Acreditamos que Vila do Abrão nunca foi o seu nome, e, sim Vila do Abraão. Contudo, não fica aqui um desejo de cristalizar verdades absolutas sobre a origem da querida Vila do Abraão, deixamos apenas uma modesta contribuição.
PEDRA DO FETO
Atrativo Natural situado próximo à
entrada da Enseada do Abraão.

“O sábio busca incessantemente o saber, pois sabe que nada sabe, mas o ignorante sempre se comporta como se tudo soubesse.” – (Josenias Antunes de Oliveira). Obrigado pelas palavras!

A Bíblia Sagrada também esclarece que JESUS CRISTO É A NOSSA ÚNICA ESPERANÇA, quando Ele diz: 

“porque sem mim nada podeis fazer”. Amém! (Livro de João 15:5).

Colaboração: Guia José Carlos Melo / Rio de Janeiro

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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

MADAME SATÃ E A ILHA GRANDE

MADAME SATÃ E A ILHA GRANDE

“A Ilha Grande é a minha segunda mãe”.  

(Madame Satã)


JOÃO FRANCISCO DOS SANTOS
(Madame Satã)
“João foi, como se diz, de tudo um pouco: malandro, artista, presidiário, pobre e até pai adotivo, até se tornar Madame Satã, cujo nome foi tirado de inspiração do filme Madam Satan, de Cecil B. De Mille, em 1930.”
(Por Tatiane Crescêncio 28/02/2006)

“Quando o conheci, já era sessentão... tinha o físico seco, sólido e razoavelmente musculoso.”  - (Oreste Ribeiro)

Infância Perdida
BANDEIRA DE GLÓRIA DO GOITÁ
É quase impossível falar do Rio Antigo, mais precisamente a partir da terceira década do século XX (passado), sem que o nome de Madame Satã seja lembrado. O mais famoso malandro que o bairro boêmio da Lapa abrigou, nasceu em 1900, em Glória do Goitá, Pernambuco, recebendo de batismo o nome de João Francisco dos Santos. Ele tinha 17 irmãos, que também eram filhos de Manoel Francisco dos Santos e Teresa Firmina da Conceição, descendentes de escravos, compondo uma família muito pobre, igual a todas as outras do interior pernambucano de então.

BANDEIRA DE PERNAMBUCO
Em razão da morte de seu pai, em 1907, a família que já era muito pobre ficou ainda mais pobre, que obrigou sua mãe a trocá-lo definitivamente por uma éguinha com o negociante de cavalos chamado Laureano. É mole?! Como todo “bom” canalha, prometeu a dona Firmina que o menino João receberia tratamento humano, casa, comida e escola. Mas, infelizmente, não foi isso o que aconteceu: Joãozinho, com apenas sete anos de idade, foi transformando numa criança escrava. Digamos que, de criança escrava para vítima de abuso sexual, a distância seja mínima, ou quase zero.

Chega ao Rio de Janeiro
MADAME SATÃ (1972)
Ocorre, que numa viagem à Itabaiana, estado da Paraíba, o menino escravo conhece outro “anjo da guarda” de nome sugestivo chamado dona Felicidade. Semelhante ao comerciante de cavalos compadeceu-se da triste situação da criança convidando-o para fugir. Ele aceitou o convite, e os dois fugiram para muito longe, longe de verdade. Chegaram ao Rio de Janeiro , em 1908, ano no qual, o Rio, foi chamado pela primeira vez de “Cidade Maravilhosa”, apelido carinhoso criado pelo escritor e jornalista maranhense Coelho Neto. Dona Felicidade monta uma pensão de nome Hotel Itabaiana, onde o pequeno João, aos oito anos de existência, fazia a entrega das marmitas.

No vai e vem das entregas, passou a freqüentar a Lapa, onde anos mais tarde se transformaria num dos malandros mais famosos e respeitados do Rio. Ruas estreitas e sujas, área de prostituição e jogo, e de muita malandragem. Amor a primeira vista entre João e a Lapa para onde fugiu em 1913 e foi viver intensamente.   Na nova “casa”, viveu como qualquer moleque de rua daquela época, sobrevivendo apenas do “Deus dará” e pequenos furtos. Cesto de feira e pé de escada era a sua cama. Em tal circunstância, e vítima de horrível destino, era preso e apanhava da polícia. Às vezes era socorrido pela cafetina Catita, mulher imensa de 180 kg que defendia os moleques como se fossem os seus filhos.  

Livrou-se do tormento da rua, quando conheceu o senhor Bernardo, vendedor de pratos e panelas de alumínio com quem passou a trabalhar para defender uns trocados. João abandonou a rua, mas não a Lapa querida. Em 1918, vai trabalhar como garçon na pensão da Lapa pertencente às madames Gaby, Naneth e Janeth. A relação entre ele e a Lapa só se interrompeu quando condenado pela justiça, a purgar grande maioria das suas penas, no famoso presídio da Ilha Grande, em Angra dos Reis, litoral sul do Rio de Janeiro.

Vida de Malandro na Lapa
Com um malandro e gigolô chamado “sete coroas” aprendeu a arte do jogo, da navalha, da rasteira e da valentia. Por volta de 1923, com 1,75 de altura e andar ligeiro, já era conhecido pelo apelido de Caranguejo, e temido pelo seu murro violento de esquerda, agilidade e resistência invejável. Era do tipo que não levava desaforo pra casa e não corria da raia. Entrava numa briga com muito gosto e coragem. Segundo a lenda, policiais e malandros foram humilhados no confronto com esse pernambucano que além de ter o “físico seco e sólido e razoavelmente musculoso”, “caminhava ereto e sempre apressado”.  Madame Satã era masculino e feminino, e muito macho sim senhor.

Um homem alto, magro e bonito chamado “Brancura”, foi o caso homo-afetivo mais conhecido de Madame Satã. Viveram juntinhos e felizes durante dois anos, até que um dia Brancura fugiu para São Paulo, para viver com uma mulher de verdade. Transtornado, foi atrás do seu grande amor, mas, em vão. Que pena!  Arrasado e vencido pelo destino retornou para o Rio de Janeiro. O bom filho à “Lapa” retorna.

Origem do nome Madame Satã
CECIL B. De MILLE (Cineasta)
Madam Satan - Assita o vídeo no youtub



Desde criança acariciava o sonho de ser travesti e assim “ser alguém na vida”, o que concretizou quando se fantasiou para um concurso lançado pelo bloco de carnaval de rua Caçadores de Veados. Outros rapazes da sua época também curtiam o mesmo sonho. Foi uma oportunidade de ouro para os homossexuais se exibirem com fantasias vistosas para as festas de carnaval da Cidade Maravilhosa. 

Certo dia, no Passeio Público (centro do Rio), foi preso com outros travestis e levados para a delegacia. Todos se identificaram com o seu nome de guerra ou profissão, exceto João Francisco dos Santos. O delegado Gonçalves estranhou o fato raro e, encontrando inspiração no título do filme americano Madam Satan (Madame Satã), de Cecil B. De Mille (1930) foi o responsável pelo apelido através do qual ficaria conhecido o lendário malandro da Lapa: Madame Satã. Gabava-se publicamente de ter sido o primeiro “travesti artístico” brasileiro.

Mais tarde, o pior aconteceu, enveredou pelo caminho do crime. Costumava dizer que não era bandido, e sim malandro. Por longo tempo foi considerado o terror do bairro da Lapa, centro do Rio (capital Federal da época), onde viveu e imortalizou seus feitos. Aos 29 anos foi preso por homicídio. O motivo foi uma briga entre ele e o guarda Alberto, dentro de um restaurante, que resultou na morte do guarda que o havia provocado e humilhado profundamente.  Fugiu, mas foi perseguido pela policia até ser capturado.

Entre uma decepção homoafetiva e outra, tinha uma recaída. Em 1946, conheceu Maria Faissal com quem passaria a viver, mas não por muito tempo. Mas, foram bons amigos.  Ainda bem.

Nas mãos da justiça dos homens
Madame Satã, enquanto nas mãos da justiça, respondeu a cerca de 29 processos referentes a agressões, desacato a autoridade, roubos e prática de um tal de “suadouro” muito comum nos bordeis (lugar destinado à prostituição) daquela época. Além do homicídio (guarda Alberto) citado anteriormente. Somados todas as penas contra ele foram 27 anos e oito meses, quase todas cumpridas no presídio da Ilha Grande. Era considerado um preso de excelente comportamento, relacionando-se bem com todos os companheiros de infortúnio e direção do presídio. As únicas faltas atribuídas ele, foram apenas algumas tentativas de fuga, que assim costumava justificar: “o pior para mim era perder a liberdade...”.

Minha querida Ilha Grande
Madame Satã (Pose predileta)
Depois de longo tempo vivendo distante da Lapa, o seu coração malandro cedeu lugar a outra paixão: Ilha Grande, que é a maior e mais bela  ilha de todo litoral fluminense. Afirmava com gratidão: “a Ilha Grande é a minha segunda mãe”. Depois de cumprir todas as penas, decidiu ficar por ali mesmo fixando residência na Vila do Abraão. Gostava de curtir sua casinha cercada por árvores frutíferas como bananeiras, jaqueiras e coqueiros, onde vivia em paz com a vida e a justiça dos homens. Para se manter, fazia trabalhos domésticos: lavava roupas para muita gente e cozinhava. Na profissão de cozinheiro ganhou fama com as suas famosas peixadas a moda Madame Satã, temperadas com condimentos tirados da mata local. Além de bom cozinheiro era também bom contador de histórias.

O sangue carnavalesco corria naturalmente nas suas veias. Durante o período da folia do Rei Momo, tinha o capricho de vestir-se com uma fantasia diferente para cada dia, e divertia-se pra valer. Contam que ele era danado, não dispensa uma noite sequer, e durante o dia saía no “bloco do sujo” com os rapazes da Vila do Abraão.   

Pai Adotivo
Como disse a Tatiane Crescêncio, João Francisco dos Santos foi de tudo um pouco: “malandro, artista, presidiário, pobre e até pai adotivo...”; tinha uma filha adotiva chamada Ivonete. Por ela lutou para que “tivesse um futuro digno”. O esforço dedicado não foi em vão, pois sua filha adotiva tornou-se professora. Afirmava ter outros filhos adotivos.

Viveu na obscuridade até 1971 quando foi procurado pelo Jornal Pasquim, único jornal alternativo que conseguiu sobreviver à ditadura militar (1964-1985). Ele cita na entrevista, que testemunhou na Praia do Corisco, localizado a cerca de quinze minutos do cais do Abraão (Ilha Grande), o assassinato de um preso chamado Jatobé, praticado por dois policiais covardes. A partir daí, volta a ser lembrado não mais como bandido e, sim, uma lenda que passaria definitivamente a fazer parte da história do Rio e da Ilha Grande.

Amigos no meio artístico
Madame Satã
No hospital de Angra dos Reis
Carisma e fama ajudaram-no conquistar amigos no meio artístico. Em janeiro de 1975, trabalhou na peça teatral Lampião do Inferno, na qual relatava fatos de sua vida na malandragem. A peça teve vida curtíssima. Os responsáveis pelo projeto de muitíssimo mau gosto, que conseguiram convencer um idoso de 75 anos, debilitado, às vésperas da morte, a reviver um passado triste e infeliz, justificaram o fracasso, afirmando que Madame Satã, não concordava muito em submeter-se às regras disciplinares da vida teatral. Pode? Por conta disso, foi abandonado e esquecido, pois tudo indica que queriam apenas explorar o passado miserável de um ser humano. No ano seguinte... 1976.

Depois desse lamentável episódio, que possivelmente justifique a sua impaciência, ao sentir-se doente e debilitado, procurou em Angra dos Reis, socorro médico no Hospital e Maternidade Condrato de Vilhena (Codrato/Coldrato), onde permaneceu internado por vários dias como indigente e no anonimato, sem que os médicos conseguissem identificar a doença que o vitimara. Lá, foi descoberto pelo Jornal O Globo, que tornou público as condições em que se encontrava o mais famoso malandro e boêmio do lendário bairro da Lapa.

Últimos meses de vida (um anjo da guarda do 'bem')
HÉLIO JAGUARIBE (JAGUAR)
Cartunista e Jornalista
“Mesmo, debilitado, desanimado, mantinha, entretanto, parte do espírito teatral de outrora, como nas ocasiões em que desabafava para os enfermeiros que cercavam sua cama: Madame satã, o travesti da Lapa, o marginal perigoso, está no fim. E após uma pausa, acrescentava: E que fim.” 

O cartunista Jaguar, ao tomar conhecimento do fato, compadeceu-se com a triste situação do amigo e, junto com a atriz Norma Benguell e Joel Barcelos transferiram-no para o hospital do INPS (INAMPS) de Ipanema, bairro nobre da zona sul do Rio, onde foi possível diagnosticar “câncer no pulmão em fase avançada”, doença que já havia comprometido outros órgãos.


Falecimento de Madame Satã - (Hospital do INPS de Ipanema, Rio)

Madame Satã, no Hospital INPS de
Ipanema, com a atriz Norma Benguell
22/fev/1976 
Internado, João ainda resistiu dois meses. Sozinho numa enfermaria, com 18 quilos a menos que o normal faleceu no dia 12 de abril de 1976, às 17 horas e 30 minutos. Na ficha, a causa da morte: câncer pulmonar com metástase (disseminação da doença em outros órgãos). Passava pouco das 21h quando o jornalista Jaguar, enviado por Deus (acredito), chegou ao hospital para reclamar o corpo do amigo. Logo depois chegava Ivonete, a filha adotiva de Madame Satã. Juntos cumpriram o seu último desejo: corpo de João Francisco dos Santos foi transladado para Ilha Grande e sepultado dignamente no cemitério da Vila do Abraão, no dia 14 de Abril.

Dois meses antes de falecer, disse ao repórter do mesmo Jornal: “A morte é o fim de todos. Pois, que venha logo, que eu não quero ficar entrevado numa cama!”. E assim se realizou o desejo do coração.
Parabéns ao cartunista e jornalista Hélio Jaguaribe, o Jaguar, pelo belo ato de humanidade. Valeu querido irmão.

Pesquisa: Guia José Carlos Melo / Rio de Janeiro
Fontes e créditos: Rogério Durst/1985; Pedro Luiz; Jornal do Brasil e o Globo; Orestes Ribeiro; Jornal Pasquim e outros. 
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Verdade que liberta: 
Salmo 41 - Bíblia Sagrada
1. "Bem aventurado é aquele que socorre ao necessitado; O Senhor (Deus) o livrará no dia do mal.

2. O Senhor o protege e lhe preserva a vida, será feliz na terra: não o entrega à vontade dos seus inimigos; na doença tu lhe afofas a cama.

JESUS CRISTO é A NOSSA ÚNICA ESPERANÇA!

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